terça-feira, 8 de agosto de 2017

Resumo do texto: "AVALIAÇÕES NACIONAIS EM LARGA ESCALA: análises e propostas"

INTRODUÇÃO E APRESENTAÇÃO DE

PROBLEMAS
     

    A avaliação educacional, especialmente a partir dos anos 90, passou a ser usada, no contexto brasileiro, em diferentes níveis administrativos, como tentativa de encontrar um caminho para a solução de alguns problemas educacionais mais prementes, esperando, possivelmente, que os processos avaliativos determinariam, entre outros resultados, a elevação dos padrões de desempenho, caso fossem conduzidos com o uso de tecnologias testadas na sua eficiência em outras experiências semelhantes, realizadas em diversos países, ainda que com culturas diferentes.
    A grande preocupação de educadores e de pessoas ligadas a problemas educacionais está na qualidade da educação. O objetivo maior, na perspectiva oferecida no decorrer desse encontro, centrou-se na aquisição de conhecimentos, no desenvolvimento de habilidades e destrezas, na formação de atitudes, no despertar de interesses e na interiorização de valores; entretanto, não se considerou em que medida esses resultados se integrariam no contexto de uma sociedade em constante transformação, sujeita à intervenção de múltiplas variáveis nem sempre previsíveis.
    É necessária uma reflexão sobre as avaliações ora operacionalizadas nos vários níveis do nosso sistema educacional, especialmente avaliações em larga escala, abrangendo a diversidade da nossa geografia multicultural, avaliações estas de natureza amostral e supostamente consideradas representativas em termos estatísticos.
     Ainda que nem sempre de forma consistente, na avaliação de competências e habilidades, mas de modo discutível e muito pouco consensual. As questões que se impõem imediatamente, com o objetivo de aprofundar nossas percepções, podem ser propostas da seguinte forma: – são desenvolvidas competências e habilidades em nosso sistema educacional de uma forma sistemática, ou, explicitando, é o nosso ensino orientado para o desenvolvimento de competências? Se for, qual a natureza dessas competências e supostas habilidades? Outra pergunta, que também reflete a nossa perplexidade: – se competências e habilidades foram promovidas, houve, efetivamente, preparo adequado dos educadores em relação a esse complexo e controvertido assunto? E quanto a atitudes, interesses e valores?
    As indagações partem do princípio de que somente se pode avaliar aquilo que efetivamente foi desenvolvido, além de considerar que não se avalia em abstrato, mas considerando a problemática em que se situam os avaliados. Quando pensamos em qualquer dos níveis da avaliação, micro ou macro2, faz-se necessário que consideremos a complexidade do seu processo, que, ao longo dos anos, foi perdendo muito do seu caráter relacional aluno/professor, com vistas à orientação da aprendizagem, passando a concentrar-se, sobretudo, conforme chama atenção Kellaghan (2001), no desempenho institucional e no dos sistemas, como sucede igualmente em outras avaliações com objetivos mais amplos, de que são exemplos, no nosso caso particular, as avaliações promovidas na década de 90 pelo Governo Federal – SAEB – Sistema de Avaliação do Ensino Básico, ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio, e ENC –Exame Nacional de Cursos. Se forem considerados alguns aspectos dessas avaliações, constataremos que usam provas escritas, com questões objetivas e questões abertas, geralmente de resposta curta, havendo situações, entretanto, em que a prova de redação é exigida. Observamos, assim, que não existem provas práticas, orais ou avaliações observacionais, como lembra Kellaghan.
    As avaliações são realizadas para diferentes fins, ainda segundo o posicionamento de Kellaghan (2001), destacando-se, inicialmente, como uma de suas prioridades, a identificação de problemas de aprendizagem, com o fito evidente de imediata superação do quadro apresentado. (Evitamos a palavra recuperação, tendo em vista o seu atual descrédito no meio educacional.) A realidade, entretanto, é bem diversa do imaginado e pretendido. O impacto dos resultados pode ser considerado mínimo, por razões várias: – os relatórios, elaborados para administradores, técnicos e, em geral, para os responsáveis pela definição e implementação de políticas educacionais, não costumam chegar às mãos dos professores para fins de análise, discussão e estabelecimento de linhas de ação. São demasiadamente técnicos, empregando um linguajar pleno de tecnalidades muitas vezes desconhecidas dos docentes e que poderiam ser evitadas. Por outro lado, esses mesmos resultados são apresentados em termos globais, sem identificação, como seria desejável, das unidades escolares, referindo-se, quando muito, a unidades macro, os estados, e, nestes, eventualmente, às regiões geo-educacionais (superintendências ou delegacias de ensino). Ainda que os resultados dos desempenhos sejam apresentados em escalas elaboradas por intermédio de rigorosos procedimentos estatísticos, e com a especificação dos vários níveis correspondentes de competência, dificilmente os professores têm condições técnicas para interpretar dados que resultam da expertise técnica dos responsáveis pelos relatórios. Destaquemos, também, que há uma certa resistência, nem sempre explicitada, mas infundada, por parte de professores e alunos, aos resultados de avaliações amostrais, traduzindo, assim, certa dose de incredulidade em relação à generalização das conclusões. É comum ouvirmos: – “a minha escola não fez parte da amostra” ou “os meus alunos não foram sorteados para a composição da amostra”. Tudo isso faz com que importantes avaliações tenham o seu impacto, quando ocorre,
A avaliação – sempre considerando o caso brasileiro – procura, igualmente, estabelecer a eficiência dos sistemas, avaliando, indiretamente, o êxito da ação docente dos professores. Avaliar professores, direta ou indiretamente, é sempre um processo que demanda grande sensibilidade, pois gera múltiplas reações com ressonâncias negativas, qualquer que seja o contexto. A avaliação do professor, por sua vez, é vista com certa suspeita, pois, na concepção dos avaliados, e às vezes com justa razão, pode significar, em muitos casos, transferência de escola ou de cidade, redução salarial, diminuição do número de aulas, concessão de bônus para os supostamente melhores e, ainda, numa situação extrema, demissão. Tudo isso integra a mitologia educacional, bastante fértil em imaginar situações as mais diversas. Avaliar o professor é sempre tarefa difícil e ingrata, mas deve ser feita, desde que com competência e, sobretudo, bom senso.



AVALIAÇÕES SISTÊMICAS – ALGUMAS

QUESTÕES CRUCIAIS


    Ainda nos anos 90 houve grandes avaliações dos sistemas estaduais de ensino no Brasil, ligadas, na maioria das vezes, a projetos educacionais financiados pelo Banco Mundial. Essas avaliações apresentaram-se de diferentes formas: – algumas, realizadas pelas próprias Secretarias de Educação; outras, por órgãos estaduais nem sempre diretamente ligados à área da educação; um terceiro grupo, com a colaboração de Fundações, instituições de direito privado especializadas na avaliação e seleção de recursos humanos; finalmente, um quarto grupo realizou suas avaliações sistêmicas estabelecendo consórcios com múltiplas instituições de ensino público e privado de terceiro grau, sob a coordenação de uma universidade de prestígio orientadora de todo o processo. Tudo isso gerou diferentes experiências, mas não contribuiu para a formação de um know how coletivo, pois, na maioria dos casos, essas experiências não se transformaram em vivências que pudessem ser intercambiáveis e a própria divulgação dos resultados foi precária, sem atender aos diversos segmentos educacionais potencialmente interessados nos resultados e nas conclusões das avaliações.
    Algumas avaliações sistêmicas tiveram um caráter censitário, mas a maioria optou pela adoção de avaliações amostrais. As primeiras, ainda que apresentassem custos elevados, tendo em vista o número expressivo de alunos e a problemática de uma logística complexa, foi resultado de uma decisão política: – fazer com que todo o sistema participasse da problemática da avaliação e não se limitasse apenas a colaborar na aplicação dos instrumentos, mas fosse partícipe inclusive da construção dos instrumentos e dos trabalhos de uma correção preliminar.

OBS: Neste resumo há excertos retirados do texto.

Heraldo Marelim Viana
Pesquisador Sênior do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundanção Carlos Chagas, São Paulo, SP


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